Blog IdomedArtigos Página atual
Tempo de leitura
7 minutos
Atualizado em
10/06/2026

CID 10 - R42
A tontura é uma das queixas mais frequentes na prática clínica, representando uma das principais causas de procura por atendimento médico, especialmente entre adultos e idosos. Estima-se que até 30% da população apresente algum episódio de tontura ao longo da vida, e uma parcela significativa desses casos tem origem no sistema vestibular. Apesar de ser um sintoma comum, a tontura é um dos desafios diagnósticos mais complexos da medicina, pois pode estar associada a doenças benignas e autolimitadas, bem como condições neurológicas graves e potencialmente fatais.
Nesse cenário, a avaliação clínica cuidadosa é a principal ferramenta diagnóstica. Mais do que exames sofisticados, a anamnese estruturada e o exame físico direcionado são capazes de esclarecer a maior parte dos casos e orientar corretamente a necessidade de investigação complementar. O otorrinolaringologista ocupa posição central nesse processo, pois detém o conhecimento anatômico e fisiológico do sistema vestibular e das vias auditivas, fundamentais para a interpretação dos achados clínicos.
O primeiro e mais importante passo na avaliação do paciente tonto é compreender exatamente o que ele está sentindo. A palavra “tontura” é vaga e pode ser utilizada para descrever sensações muito diferentes entre si, o que torna indispensável a investigação minuciosa da queixa principal.
A tontura pode ser classificada, do ponto de vista clínico, em quatro grandes grupos:
• Vertigem: sensação ilusória de movimento, geralmente rotatória, associada a alterações do sistema vestibular periférico ou central. É o tipo mais frequentemente avaliado pelo otorrinolaringologista.
• Desequilíbrio: instabilidade ao caminhar ou permanecer em pé, comum em idosos, em pacientes com neuropatias periféricas, doenças musculoesqueléticas ou alterações visuais.
• Pré-síncope: sensação de desmaio iminente, frequentemente relacionada a causas cardiovasculares, como hipotensão ortostática ou arritmias.
• Tontura inespecífica: descrita como sensação de cabeça leve, flutuação ou confusão, muitas vezes associada a ansiedade, distúrbios metabólicos ou uso de medicamentos.
A diferenciação correta entre esses tipos já direciona grande parte do raciocínio diagnóstico, evitando exames desnecessários e encaminhamentos inadequados.
A anamnese é, comprovadamente, o elemento mais importante na investigação da tontura. Estudos clínicos mostram que mais de 70% dos diagnósticos vestibulares podem ser estabelecidos apenas com a história clínica. Para isso, o médico deve conduzir a entrevista de forma estruturada, explorando aspectos temporais, desencadeantes e sintomas associados.
• Episódios breves, com duração de segundos, sugerem vertigem posicional paroxística benigna (VPPB).
• Crises com duração de horas, associadas a sintomas auditivos, são sugestivas de doença de Ménière.
• Tontura contínua por dias pode indicar neurite vestibular.
• Evolução progressiva e insidiosa levanta suspeita de causas centrais.
A relação da tontura com movimentos da cabeça, mudança de posição, esforço físico ou estímulos visuais é extremamente relevante. A tontura posicional, por exemplo, é fortemente associada à VPPB, enquanto a tontura induzida por ambientes visuais pode estar relacionada à enxaqueca vestibular.
A presença de perda auditiva, zumbido, plenitude auricular, náuseas, vômitos, cefaleia, diplopia, disartria ou parestesias deve ser cuidadosamente investigada. Sintomas neurológicos associados são sinais de alerta e indicam possível origem central.
Doenças cardiovasculares, metabólicas, autoimunes e neurológicas devem ser consideradas. O uso de medicamentos sedativos, anti-hipertensivos, antidepressivos ou anticonvulsivantes pode contribuir para o quadro.
Após a anamnese, o exame físico direcionado confirma ou refuta as hipóteses diagnósticas. O exame deve ser sistemático, começando pela avaliação otorrinolaringológica completa e seguindo para testes vestibulares à beira do leito.
• Otoscopia: pesquisa de infecção, perfuração timpânica ou colesteatoma;
• Avaliação nasal e orofaríngea: exclusão de processos inflamatórios;
• Avaliação cervical: pesquisa de rigidez ou dor.
• Nível de consciência;
• Pares cranianos;
• Força e sensibilidade;
• Coordenação motora.
Incluem:
• Pesquisa de nistagmo espontâneo e posicional;
• Teste de impulso cefálico (Head Impulse Test);
• Teste de Romberg e Romberg sensibilizado;
• Marcha de Fukuda;
• Prova de Dix-Hallpike;
• Testes de perseguição ocular e sacadas.
Esses testes permitem diferenciar, com alta sensibilidade, alterações vestibulares periféricas das centrais, sendo ferramentas fundamentais no consultório e no pronto atendimento.
A distinção entre tontura periférica e central é uma das etapas mais importantes da avaliação clínica, pois determina condutas completamente diferentes.
• Vertigem intensa;
• Presença de náuseas e vômitos;
• Nistagmo horizontal ou rotatório, fatigável;
• Alteração auditiva associada;
• Melhora com fixação visual.
• Vertigem menos intensa, porém persistente;
• Nistagmo vertical ou multidirecional;
• Ausência de fadiga;
• Presença de sinais neurológicos associados;
• Teste de impulso cefálico normal em paciente sintomático.
A presença de sinais centrais exige investigação imediata com exames de imagem e avaliação neurológica, devido ao risco de AVC, tumores ou doenças desmielinizantes.
Os exames complementares devem ser solicitados de forma criteriosa e direcionada. Eles não substituem a avaliação clínica, mas auxiliam na confirmação diagnóstica e no planejamento terapêutico.
• Audiometria e imitanciometria;
• Vectoeletronistagmografia (VENG);
• Video Head Impulse Test (vHIT);
• Potenciais evocados miogênicos vestibulares (VEMP);
• Ressonância magnética de encéfalo, quando indicada;
• Exames laboratoriais direcionados.
A avaliação do paciente tonto é um exercício clínico que exige atenção, método e raciocínio estruturados. Uma anamnese bem conduzida e um exame físico direcionado são capazes de esclarecer a maior parte dos diagnósticos, orientar o tratamento e identificar situações de risco que exigem intervenção imediata.
O otorrinolaringologista, por sua formação específica, ocupa papel central nesse processo, sendo o profissional mais capacitado para conduzir a investigação vestibular de forma segura e eficaz. Ao priorizar a clínica, reduz-se a realização de exames desnecessários, melhora-se o cuidado ao paciente e aumenta-se a precisão diagnóstica — pilares de uma prática médica moderna, responsável e resolutiva.
Para médicos que desejam aprofundar seus conhecimentos e ampliar a segurança na condução de casos otorrinolaringológicos, o IDOMED oferece a Pós-graduação em Otorrinolaringologia. A formação reúne integração entre conteúdo teórico e prática clínica e cirúrgica, vivência em diferentes unidades de saúde, possibilidade de participação em até 150 cirurgias por ano e parceria com o Instituto de Otorrinolaringologia da Gamboa, contribuindo para uma atuação mais segura, completa e alinhada às demandas reais da especialidade.
• Chefe do IOG
• Coordenadora Acadêmica da Pós-Graduação em Otorrinolaringologia no IDOMED
• Coordenadora da Granato Ensino e Pesquisa
• Otorrinolaringologista no HMMC
• Mestranda no INI
Aviso Legal: As informações contidas neste blogpost têm caráter estritamente educativo e não substituem, em hipótese alguma, a avaliação, o diagnóstico e a prescrição de um médico ou farmacêutico. Leia sempre a bula.