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Atualizado em
07/05/2026

CID 10 - K35
A principal causa da apendicite aguda é a obstrução da luz apendicular, frequentemente causada por fecalito (acúmulo endurecido de fezes) em adultos e adolescentes. Em crianças, predomina a hiperplasia linfóide, que também pode levar à obstrução do apêndice.
Outras causas menos frequentes incluem:
· tumores (carcinoide é o mais comum, podendo ocorrer também adenocarcinoma);
· parasitoses;
· corpos estranhos;
· processos inflamatórios do apêndice.
Qualquer mecanismo que resulte em obstrução e estase da luz tubular pode desencadear o processo inflamatório.
A apendicite aguda é precipitada, classicamente, por uma obstrução da luz apendicular que pode ocorrer por diferentes mecanismos.
Após a obstrução, inicia-se a fase edematosa ou inflamatória, caracterizada por:
· acúmulo de muco;
· aumento da pressão intraluminal;
· congestão vascular;
· edema da parede apendicular.
Persistindo a obstrução, o processo evolui para a fase supurativa ou fibrinosa, na qual ocorre:
· infiltração de neutrófilos;
· presença de exsudato purulento;
· comprometimento progressivo da mucosa.
Se não houver resolução, instala-se a fase gangrenosa, caracterizada por necrose isquêmica da parede do apêndice.
Nessa fase, pode ocorrer perfuração, geralmente na borda antimesentérica do órgão.
A perfuração resulta na disseminação do material infeccioso para a cavidade peritoneal, aumentando o risco de peritonite localizada ou difusa.
Alguns achados clínicos indicam irritação peritoneal, entre eles:
· dor à descompressão brusca do abdome;
· contratura involuntária da musculatura abdominal (abdome em tábua);
· defesa abdominal à palpação;
· dor à percussão do abdome;
· dor desencadeada pela movimentação ou tosse.
Outro achado descrito é o sinal de Lenander, caracterizado pela diferença de temperatura axilar e retal maior que 1°C, sugerindo peritonite.
Para diferenciar se a dor é de origem intra-peritoneal ou apenas da parede abdominal, podemos utilizar o sinal de Carnett: aumento ou manutenção da dor à contração voluntária sugere origem parietal, enquanto alívio implica causa intra-abdominal.
O quadro típico inicia-se com hiporexia (anorexia) acompanhada de dor abdominal difusa, de intensidade leve a moderada, localizada em região epigástrica ou periumbilical (fase visceral).
Evolui para uma dor focal, intensa na fossa ilíaca direita após 12 a 24 horas (fase somática). Associam-se náuseas, vômitos (geralmente após o início da dor) e febre baixa.
· hiporexia (anorexia, perda do apetite);
· dor abdominal inicialmente periumbilical/epigástrica de caráter visceral;
· náuseas e/ou vômitos;
· migração da dor para a fossa ilíaca direita (caráter somático);
· febre baixa (menos comum no início, geralmente surge tardiamente).
Ao exame físico podem ser observados:
· dor à palpação profunda da fossa ilíaca direita;
· descompressão dolorosa;
· defesa muscular;
· sinais de irritação peritoneal.
Diversas manobras semiológicas podem auxiliar na avaliação clínica da apendicite aguda.
Entre as mais utilizadas destacam-se:
O sinal de Blumberg consiste na dor à descompressão brusca da fossa ilíaca direita (ponto de McBurney), sendo indicativo de peritonite.
O sinal de Rovsing é a dor referida na fossa ilíaca direita após compressão do quadrante inferior esquerdo, sugerindo distensão do ceco e irritação retrógrada do apêndice inflamado.
O sinal de Dunphy é a dor exacerbada na fossa ilíaca direita à tosse, reflexo de irritação do peritônio parietal naquele local.
O sinal do psoas é um exame que indica inflamação do músculo psoas (psoíte), frequentemente utilizado na investigação de apendicite aguda em situações especiais como na posição retroperitoneal. É positivo quando há dor na fossa ilíaca direita ao realizar extensão da coxa sobre o quadril. Com o paciente em decúbito lateral esquerdo, movimenta-se a coxa direita para trás, estirando o músculo psoas. Ocorrerá dor durante essa manobra se houver processo inflamatório ao redor do músculo psoas, como nos casos de apendicite retroperitoneais.
O sinal do obturador é realizado com o paciente em decúbito dorsal, flexão passiva da perna sobre a coxa e da coxa sobre a pelve, então procede-se com uma rotação interna da coxa. Tem maior sensibilidade nas apendicites com posição pélvica, aderido ao músculo obturador, apresentando dor no hipogástrio durante o exame.
O sinal de Aaron é caracterizado pela presença de dor ou desconforto referido no epigástrio ou região precordial, que ocorre ao se realizar pressão firme e contínua sobre o ponto de McBurney (fossa ilíaca direita). A pressão contínua no apêndice inflamado irrita o peritônio, causando uma dor referida em uma região distante, superior ao local da inflamação.
O sinal de Ten Horn é a presença de dor na fossa ilíaca direita quando o examinador traciona suavemente o testículo direito do paciente. Essa manobra indica irritação peritoneal, frequentemente sugerindo que o apêndice inflamado está numa posição que afeta os vasos gonadais.
O sinal de Lenander representa a diferença da temperatura axilar e retal maior de um grau. Em casos de peritonites, a temperatura retal tende a ser muito maior que a temperatura axilar.
O aumento ou manutenção da dor à contração voluntária sugere origem parietal, enquanto o alívio implica causa intra-abdominal.
Todas essas manobras visam distinguir dor visceral de irritação parietal, avaliar a presença de peritonite e identificar particularidades do processo inflamatório no abdome agudo.
No entanto, nenhum desses exames clínicos é definitivo de apendicite aguda, podem estar presentes em outras doenças, portanto é necessário avaliar as informações em conjunto e sempre no contexto de uma história clínica compatível.
· Ultrassonografia
A ultrassonografia é um exame disponível, barato que pode auxiliar no diagnóstico de apendicite aguda, porém não é definitivo, podendo ser falho, além de ser operador dependente.
O ultrassom pode revelar um apêndice não compressível, com diâmetro transversal >6 mm, parede espessada, presença de apendicolito, líquido periapendicular, aumento do fluxo vascular em Doppler (fase inflamatória) ou redução na fase gangrenosa. Achados como perda da compressibilidade, estratificação da parede e líquido livre também reforçam o diagnóstico.
Cabe salientar que exame normal não exclui apendicite, especialmente em adultos.
· Tomografia computadorizada (TC)
A tomografia computadorizada (TC) de abdome é o exame de maior acurácia e sensibilidade na confirmação da apendicite em quadros atípicos ou duvidosos, principalmente em pacientes obesos e adultos.
A TC permite visualizar o apêndice aumentado de diâmetro (>6mm), espessamento parietal, borramento da gordura periapendicular, presença ou não de abscessos, líquido livre e identificar diagnósticos diferenciais.
· Ressonância Magnética Nuclear (RMN)
Em gestantes, o exame de imagem de escolha inicial é a ultrassonografia abdominal devido à ausência de radiação. Nos casos em que a USG não é conclusiva, a ressonância magnética nuclear (RMN) é o método de maior sensibilidade e especificidade, principalmente a partir do segundo trimestre gestacional, sem riscos materno-fetais.
Em relação aos exames laboratoriais, no hemograma observa-se leucocitose leve a moderada (geralmente 10.000–16.000), desvio à esquerda e neutrofilia. PCR pode estar elevada, particularmente em casos avançados. Em gestantes, há leucocitose fisiológica, o que limita a utilidade do exame. Outros testes, como exames de função renal, sódio e potássio, ativam a investigação de possíveis complicações e diagnósticos diferenciais.
No exame de urina tipo 1 a leucocitúria pode estar presente se o apêndice inflamado estiver próximo ao ureter direito, podendo acompanhar hematúria discreta. Essa alteração, porém, não indica obrigatoriamente infecção urinária e não deve excluir o diagnóstico de apendicite; trata-se de alteração reacional decorrente da proximidade anatômica.
Os principais diagnósticos diferenciais são:
· gastroenterocolite
· diverticulite de Meckel
· contratura muscular de parede (síndrome de Carnett)
· doença inflamatória pélvica
· cisto ovariano roto ou torcido
· gravidez ectópica
· torção de ovário
· pielonefrite aguda
· litíase ureteral
· tiflite
· pneumonia de base (em crianças)
· cetoacidose diabética
· insuficiência renal aguda
· herpes zoster abdominal (fase prodrômica)
Devemos pensar que a linfadenite mesentérica ocorre sobretudo em crianças e adolescentes, quando há dor abdominal difusa ou em quadrante inferior direito, febre e quadro infeccioso sistêmico prévio (como IVAS). O exame físico pode lembrar o da apendicite, mas geralmente tem evolução mais branda e auto-limitada. O ultrassom abdominal pode mostrar linfonodos mesentéricos aumentados, sem sinais claros de apendicite.
A apendangite epiploica deve ser pensada diante de dor na fossa ilíaca direita sem sinais sistêmicos significativos, tipicamente em adultos. A TC demonstra lesão ovalada com densidade de gordura e halo periférico hiperemiado, sugerindo infarto ou torsão do apêndice epiploico. O tratamento costuma ser conservador, com analgésicos e anti-inflamatórios.
A tiflite corresponde à inflamação do ceco, comum em pacientes imunossuprimidos (particularmente neutropênicos). O diagnóstico é feito por TC, que evidencia espessamento da parede do ceco, edema e possível pneumoperitônio em casos graves.
O quadro clínico envolve dor abdominal de início súbito, febre, diarreia e sinais sistêmicos. O tratamento inclui suporte clínico, antibioticoterapia de amplo espectro e, em casos de perfuração, intervenção cirúrgica.
Em gestantes, a apendicite pode manifestar-se com dor abdominal em localizações atípicas (fígado, flanco direito, dorso, epigástrio) especialmente a partir do segundo trimestre, devido ao deslocamento do apêndice pelo útero.
O quadro pode ser menos exuberante: febre, náuseas e vômitos podem ser indistinguíveis dos sintomas gestacionais comuns. A leucocitose fisiológica limita o valor do hemograma. O diagnóstico é predominantemente clínico, com auxílio de ultrassonografia ou ressonância magnética.
O tratamento da apendicite na gestante também é cirúrgico, com indicação de apendicectomia precoce. Deve-se adotar medidas para minimizar riscos anestésicos e obstétricos. Videolaparoscopia pode ser utilizada, preferencialmente por técnica de Hasson, evitando lesão uterina. No terceiro trimestre, diante de sinais de sofrimento fetal ou trabalho de parto iminente, avalia-se a necessidade de cesariana concomitante.
Em crianças pequenas, a base apendicular é mais larga, dificultando obstrução e tornando apendicite rara nos lactentes.
O diagnóstico é difícil pela anamnese imprecisa e exame físico limitado; o quadro é mais indolente, com atraso diagnóstico frequente. Há maior risco de perfuração pela imaturidade do epíplon, o que limita a contenção do processo inflamatório, elevando morbimortalidade.
O manejo deve priorizar estabilização clínica (hidratação, antibioticoterapia) antes da abordagem cirúrgica.
No paciente idoso, manifestações clínicas podem ser oligo ou atípicas, muitas vezes sem febre ou sintomas proeminentes, devido à escassa reserva fisiológica e resposta inflamatória diminuída. O risco de complicações e perfuração é mais elevado pelo retardo diagnóstico.
A abordagem deve ser rápida e direta, valorizando alterações laboratoriais e exames de imagem, especialmente TC, sem hesitar diante de suspeita diagnóstica.
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Dr. Fabio Colagrossi Paes Barbosa | CRM-SP 126067
· Médico, Cirurgião Geral e Cirurgião do Aparelho Digestivo
· Fellow em Cirurgia Hepato-Biliopancreática pelo King’s College Hospital – Londres
· Mestre e Doutor em Cirurgia pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
· Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões
· Membro Titular Especialista do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva
· Membro do Capítulo Brasileiro da International Hepato-Pancreato-Biliary Association
· Fundador do curso Hardwork Medicina
· Diretor de Pós-Graduação Idomed
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