Blog IdomedArtigos Página atual
Tempo de leitura
5 minutos
Atualizado em
07/05/2026

CID 10 - B373
A candidíase vaginal é uma infecção vulvovaginal causada, na maioria dos casos, por fungos do gênero Candida, especialmente Candida albicans, que constitui parte da microbiota vaginal normal em uma parcela significativa das mulheres.
Trata-se, portanto, de uma infecção oportunista, que ocorre quando há desequilíbrio do ecossistema vaginal, permitindo a proliferação excessiva do fungo.
Em condições fisiológicas, o pH vaginal é mantido ácido principalmente pela ação dos lactobacilos, que produzem ácido lático e inibem o crescimento de microrganismos patogênicos.
Alterações nesse equilíbrio, com redução dos lactobacilos ou modulação da resposta imune local, favorecem a transição da Candida de sua forma comensal para a forma patogênica, com desenvolvimento de hifas e invasão do epitélio vaginal. Esse processo desencadeia uma resposta inflamatória local intensa, responsável pelos sintomas característicos da doença.
Diversos fatores podem predispor ao desenvolvimento da candidíase vaginal, especialmente aqueles que alteram o ambiente vaginal ou a imunidade local e sistêmica.
Entre os principais fatores de risco destacam-se:
· uso recente de antibióticos de amplo espectro, que reduzem a população de lactobacilos;
· gestação, em virtude do aumento dos níveis de estrogênio e do maior conteúdo de glicogênio vaginal;
· diabetes mellitus, sobretudo quando mal controlado;
· uso de contraceptivos hormonais com altas doses estrogênicas.
Outros fatores incluem:
· imunossupressão (como em pacientes com HIV ou em uso de corticoides);
· uso de roupas íntimas apertadas ou sintéticas;
· umidade excessiva na região genital;
· hábitos de higiene inadequados;
· história prévia de candidíase recorrente.
É importante ressaltar que a candidíase vaginal não é considerada uma infecção sexualmente transmissível, embora a atividade sexual possa facilitar a recorrência em algumas mulheres.
O quadro clínico da candidíase vaginal é predominantemente inflamatório e caracteriza-se por prurido vulvovaginal intenso (sensação de coceira), frequentemente descrito como o sintoma mais incômodo.
O corrimento vaginal, quando presente, é tipicamente branco, espesso e grumoso, com aspecto semelhante a “leite coalhado”, geralmente inodoro ou com odor pouco perceptível.
Outros sintomas comuns incluem:
· ardor vaginal;
· dispareunia de introdução (dor sentida durante a penetração);
· disúria (dor, queimação ou desconforto ao urinar);
· hiperemia vulvar (vermelhidão intensa na região genital externa).
Ao exame ginecológico, observa-se eritema e edema da vulva e da mucosa vaginal, com placas esbranquiçadas aderidas à parede vaginal, que podem ser removidas, deixando áreas hiperemiadas subjacentes.
O diagnóstico da candidíase vaginal é essencialmente clínico, baseado na associação entre sintomas típicos e achados ao exame ginecológico. Em casos duvidosos, recorrentes ou refratários ao tratamento, podem ser utilizados exames complementares.
O exame microscópico a fresco ou após coloração pelo Gram do conteúdo vaginal pode revelar a presença de leveduras, blastoconídios e pseudohifas, confirmando o diagnóstico.
O pH vaginal geralmente permanece normal (≤ 4,5), o que auxilia na diferenciação em relação a outras causas de vulvovaginite, como vaginose bacteriana e tricomoníase. A cultura para Candida é reservada para casos de candidíase recorrente ou suspeita de espécies não-albicans.
Na mulher não gestante, a candidíase vaginal não complicada pode ser tratada com antifúngicos azólicos, tanto por via tópica quanto por via oral, apresentando elevadas taxas de sucesso clínico e microbiológico.
Entre as opções terapêuticas estão:
· azólicos vaginais, como clotrimazol ou miconazol por 7 dias;
· nistatina via vaginal por 14 dias;
· fluconazol 150 mg por via oral em dose única.
A escolha da via de administração deve levar em conta a preferência da paciente, a intensidade dos sintomas, a tolerabilidade, o custo e a adesão ao tratamento.
Em geral, não há indicação de tratamento do parceiro sexual, exceto nos casos em que este apresente sintomas.
Na gestação, o manejo terapêutico deve priorizar exclusivamente o uso de antifúngicos tópicos, devido às preocupações relacionadas à segurança fetal.
O uso de antifúngicos sistêmicos, especialmente o fluconazol, não é recomendado durante a gravidez, em razão da associação com potenciais efeitos adversos fetais.
Os esquemas preferenciais incluem azólicos vaginais por 7 dias, como clotrimazol ou miconazol, que apresentam bom perfil de segurança e eficácia comprovada nesse período.
A adesão ao tratamento completo deve ser reforçada, uma vez que o manejo adequado é essencial para o alívio dos sintomas maternos e para a redução do risco de recorrências.
A candidíase vaginal recorrente é definida pela ocorrência de quatro ou mais episódios em um período de 12 meses.
Essa condição exige investigação de possíveis fatores predisponentes, como:
· diabetes não diagnosticado;
· imunossupressão;
· uso frequente de antibióticos.
O manejo envolve tratamento antifúngico prolongado, geralmente com uma fase de indução seguida de terapia de manutenção.
O esquema mais utilizado consiste em:
· fluconazol 150 mg via oral em três doses, com intervalo de três dias entre elas (dia 1, dia 4 e dia 7);
· posteriormente, manutenção com uma dose semanal por seis meses.
Nos casos causados por espécies não-albicans, podem ser necessários esquemas terapêuticos alternativos e acompanhamento especializado
O diagnóstico diferencial entre candidíase vaginal e vaginose citolítica é um desafio frequente na prática clínica, pois ambas podem apresentar sintomas semelhantes.
Entre os sintomas compartilhados estão:
· prurido vulvovaginal (coceira);
· ardor;
· dispareunia;
· corrimento esbranquiçado.
Apesar da apresentação clínica parecida, tratam-se de condições com mecanismos fisiopatológicos distintos, o que torna fundamental uma avaliação cuidadosa para evitar condutas inadequadas e persistência dos sintomas.
A candidíase vaginal resulta da proliferação de fungos do gênero Candida, enquanto a vaginose citolítica ocorre devido ao crescimento excessivo de lactobacilos, levando a um ambiente vaginal excessivamente ácido e à lise das células epiteliais.
Na candidíase vaginal, observa-se:
· prurido intenso;
· inflamação evidente;
· corrimento espesso e grumoso.
Na vaginose citolítica, os sintomas tendem a ser mais cíclicos, frequentemente com piora no período pré-menstrual.
A avaliação do pH vaginal é um elemento-chave no diagnóstico diferencial:
· candidíase vaginal: pH entre 3,8 e 4,5;
· vaginose citolítica: pH frequentemente abaixo de 4,0.
O exame microscópico pode revelar:
· presença de leveduras e pseudohifas na candidíase;
· grande quantidade de lactobacilos e intensa citólise na vaginose citolítica.
As diferenças diagnósticas têm impacto direto no tratamento.
A candidíase vaginal requer antifúngicos azólicos por via tópica ou oral. Já a vaginose citolítica não deve ser tratada com antifúngicos, pois essa conduta pode agravar o quadro.
O manejo da vaginose citolítica baseia-se na redução da acidez vaginal, por meio de medidas alcalinizantes, como o uso de bicarbonato de sódio, além da suspensão de intervenções que favoreçam o excesso de lactobacilos.
Dessa forma, o reconhecimento adequado dessas duas entidades clínicas, com atenção ao pH vaginal e aos achados microscópicos, é essencial para garantir um tratamento direcionado, evitar terapias desnecessárias e promover a resolução eficaz dos sintomas vaginais.
O domínio desses aspectos é essencial para profissionais que atuam na assistência à saúde da mulher. Se você deseja aprofundar seus conhecimentos em diagnóstico e manejo das principais condições ginecológicas da prática clínica, conheça a Pós-Graduação em Ginecologia Ambulatorial do IDOMED, programa voltado à formação médica especializada e à qualificação da prática assistencial.
Dra. Vera Lúcia Mota da Fonseca | CRM 52-53433-2
· Chefe do Setor de Patologia do Trato Genital Inferior do HUCFF-UFRJ
· Prof. responsável pela disciplina de Saúde da Mulher da Universidade Estácio de Sá - Campus Cittá América
· Coordenadora Nacional dos Cursos de pós-graduação em Ginecologia da Idomed
· Membro Titular (Cadeira 81) da Academia de Medicina do Rio de Janeiroo.
· Membro Titular da ISSVD - International Society for the Study of Vulvaginal Disease.
· Diretora da SGORJ e da ABPTGIC.
· Membro do Conselho Editorial da Revista Femina (Publicação da Febrasgo), do JBG (Jornal Brasileiro de Ginecologia) e da Revista Gestão em Saúde da Editora DOC.
Dra Letícia da Fonseca Gomes | CRM 52-120052-6
· Ginecologista - obstetra
· Professora de Propedêutica da UNESA - Campus Cittá América
· Pós-graduação em Ginecologia Endócrina
· Mestranda da UFRJ
Aviso Legal: As informações contidas neste blogpost têm caráter estritamente educativo e não substituem, em hipótese alguma, a avaliação, o diagnóstico e a prescrição de um médico ou farmacêutico. Leia sempre a bula.