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Atualizado em
07/05/2026

CID 10 – N70-N77
A Doença Inflamatória Pélvica é uma condição infecciosa e inflamatória que acomete o trato genital superior feminino, incluindo endométrio, trompas, ovários e estruturas pélvicas adjacentes.
Geralmente resulta da ascensão de microrganismos do trato genital inferior, sendo mais frequentemente associada a infecções sexualmente transmissíveis, principalmente Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae, embora a infecção seja, na maioria dos casos, polimicrobiana.
A importância clínica da DIP reside no seu potencial de causar sequelas ginecológicas graves e muitas vezes irreversíveis, mesmo após um único episódio. Entre as principais complicações estão infertilidade, gravidez ectópica, dor pélvica crônica e formação de abscessos tubo-ovarianos. Além disso, a DIP é causa frequente de internação ginecológica e representa um relevante problema de saúde pública, especialmente em mulheres jovens e sexualmente ativas.
Os fatores de risco mais associados à DIP incluem:
· múltiplos parceiros sexuais;
· início precoce da vida sexual;
· relações sexuais desprotegidas;
· histórico prévio de infecções sexualmente transmissíveis;
· episódios anteriores de DIP.
Procedimentos ginecológicos invasivos, como inserção de dispositivo intrauterino (DIU), curetagem uterina e histeroscopia, também podem facilitar a ascensão de microrganismos, especialmente quando realizados na presença de infecção cervical ativa.
Outros fatores relevantes incluem baixo nível socioeconômico, dificuldade de acesso aos serviços de saúde, tabagismo e uso inadequado ou irregular de preservativos. Ressalta-se que a DIP pode ocorrer mesmo na ausência de fatores de risco claramente identificáveis, o que exige alto grau de suspeição clínica.
A apresentação clínica da DIP é variável e pode ir desde quadros leves e oligossintomáticos até manifestações graves com sinais sistêmicos de infecção. O sintoma mais comum é dor pélvica ou dor abdominal inferior, geralmente de início subagudo e intensidade variável.
Podem estar associados:
· corrimento vaginal anormal;
· dispareunia (dor na relação),
· sangramento uterino anormal,
· disúria (dor ao urinar);
· febre.
Ao exame ginecológico, são achados frequentes a dor à mobilização do colo uterino, sensibilidade uterina e dor à palpação dos anexos, compondo a tríade clássica do diagnóstico clínico.
Em casos mais avançados, pode haver sinais de peritonite pélvica (inflamação do peritônio), massa anexial sugestiva de abscesso tubo-ovariano e comprometimento do estado geral.
O diagnóstico da Doença Inflamatória Pélvica é essencialmente clínico e baseia-se na combinação de critérios maiores, menores e elaborados, com o objetivo de garantir diagnóstico precoce e início imediato do tratamento, mesmo na ausência de confirmação laboratorial ou por imagem.
Considera-se o diagnóstico de DIP quando estão presentes três critérios maiores associados a pelo menos um critério menor, ou a presença de um critério elaborado isoladamente.
Os critérios maiores incluem dor em abdome inferior, dor à palpação dos anexos e dor à mobilização do colo uterino.
Os critérios menores compreendem febre (temperatura axilar ≥ 37,8 °C ou oral ≥ 38,3 °C), secreção vaginal ou cervical anormal, leucocitose em sangue periférico, elevação da proteína C reativa ou da velocidade de hemossedimentação, comprovação laboratorial de infecção por Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae ou
Mycoplasma genitalium, presença de massa pélvica e identificação de mais de 10 leucócitos por campo de imersão em secreção endocervical.
Os critérios elaborados incluem evidência histopatológica de endometrite, identificação de abscesso tubo-ovariano ou de fundo de saco de Douglas em exames de imagem e achados laparoscópicos compatíveis com Doença Inflamatória Pélvica.
Os exames complementares na Doença Inflamatória Pélvica têm papel auxiliar, não sendo indispensáveis para o início do tratamento, que deve ser instituído com base na suspeita clínica. Esses exames contribuem para a avaliação da gravidade da doença, exclusão de diagnósticos diferenciais, identificação do agente etiológico, detecção de complicações e monitoramento da resposta terapêutica.
Os exames laboratoriais incluem hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação, que podem demonstrar atividade inflamatória, embora resultados normais não excluam o diagnóstico. O teste de gravidez é obrigatório para afastar gestação ectópica, e a realização de sorologias para HIV, sífilis e hepatites deve ser oferecida. Exames microbiológicos, preferencialmente por métodos moleculares (PCR), permitem a detecção de Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae em amostras endocervicais.
A ultrassonografia transvaginal é o principal exame de imagem, podendo evidenciar líquido em fundo de saco, espessamento tubário, hidrossalpinge (obstrução das tubas uterinas) ou massas anexiais, sendo especialmente útil na suspeita de abscesso tubo-ovariano. A tomografia computadorizada e a ressonância magnética são reservadas para casos de dúvida diagnóstica, doença grave ou suspeita de complicações.
O tratamento da DIP deve ser iniciado o mais precocemente possível e deve abranger cobertura para os principais agentes etiológicos, incluindo Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis, anaeróbios, bactérias gram-negativas e Mycoplasma genitalium. O manejo pode ser ambulatorial ou hospitalar, dependendo da gravidade do quadro clínico, da adesão ao tratamento e da presença de complicações.
Esquemas ambulatoriais incluem ceftriaxona 500mg, intramuscular, dose única, associada à doxiciclina 100mg, via oral, de 12/12 horas e metronidazol 500mg, via oral, de 12/12 horas, por 14 dias. O acompanhamento clínico nas primeiras 48 a 72 horas é essencial para avaliar a resposta terapêutica.
O tratamento hospitalar está indicado em casos graves, gestação, falha terapêutica ambulatorial, abscesso tubo-ovariano ou impossibilidade de excluir emergência cirúrgica. E o esquema mais utilizado é Ceftriaxona 1 g, intravenosa, uma vez por dia, por 14 dias, associado a Doxiciclina 100 mg, via oral, de 12/12h por 14 dias e Metronidazol 400mg IV de 12/12 horas. A terapia parenteral pode ser descontinuada 24 a 48 horas após a melhora clínica e a continuação terapêutica antimicrobiana por via oral deve se estender até 14 dias.
O manejo da Doença Inflamatória Pélvica inclui medidas comportamentais, tratamento sintomático, antibioticoterapia adequada e abordagem dos parceiros sexuais, com o objetivo de controlar a infecção, aliviar sintomas e prevenir complicações.
Recomenda-se abstinência sexual até a completa resolução do quadro clínico e conclusão do tratamento. O tratamento sintomático deve ser instituído conforme necessidade, com uso de analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios não hormonais.
Todos os parceiros sexuais com contato nos últimos dois meses devem ser tratados empiricamente, independentemente de sintomas, utilizando ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única associada à azitromicina 1 g via oral em dose única, a fim de interromper a cadeia de transmissão e reduzir o risco de reinfecção.
A prevenção da DIP baseia-se principalmente na prevenção das ISTs, por meio do uso consistente de preservativos, diagnóstico e tratamento precoce das infecções cervicais, rastreamento de Chlamydia trachomatis em populações de risco e educação em saúde sexual. O acesso a serviços de saúde de qualidade e a orientação adequada são pilares fundamentais para reduzir a incidência da doença.
O cuidado com a paciente com DIP exige atenção clínica, raciocínio diagnóstico estruturado e conhecimento atualizado das diretrizes terapêuticas. Se você deseja aprofundar seus conhecimentos em saúde da mulher e aprimorar sua prática clínica, conheça a Pós-Graduação em Ginecologia Ambulatorial do IDOMED, programa voltado à formação médica especializada e ao manejo das principais condições ginecológicas da prática assistencial.
· Chefe do Setor de Patologia do Trato Genital Inferior do HUCFF-UFRJ
· Prof. responsável pela disciplina de Saúde da Mulher da Universidade Estácio de Sá - Campus Cittá América
· Coordenadora Nacional dos Cursos de pós-graduação em Ginecologia da Idomed
· Membro Titular (Cadeira 81) da Academia de Medicina do Rio de Janeiro.
· Membro Titular da ISSVD - International Society for the Study of Vulvaginal Disease.
· Diretora da SGORJ e da ABPTGIC.
· Membro do Conselho Editorial da Revista Femina (Publicação da Febrasgo) , do JBG (Jornal Brasileiro de Ginecologia) e da Revista Gestão em Saúde da Editora DOC.
· Ginecologista - obstetra
· Professora de Propedêutica da UNESA - Campus Cittá América
· Pós-graduação em Ginecologia Endócrina
· Mestranda da UFRJ
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