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Atualizado em
21/08/2026

A violência contra a mulher é uma questão de saúde pública e uma violação de direitos humanos que exige atuação integrada de diferentes setores da sociedade. Nesse cenário, os profissionais da saúde ocupam uma posição estratégica: muitas vezes, o serviço de saúde pode ser uma das primeiras portas de entrada para mulheres que vivenciam situações de violência.
O tema ganha ainda mais destaque durante o Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização e enfrentamento à violência contra as mulheres. Em 2026, a mobilização tem um significado especial: a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) completa 20 anos, reforçando a importância da informação, da prevenção e do fortalecimento da rede de proteção.
A violência pode se manifestar de diferentes formas e nem sempre deixa marcas físicas visíveis. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) classifica cinco tipos de violência contra a mulher. Reconhecer cada modalidade é essencial para uma atuação profissional eficaz. Entre as principais estão a violência:
● Física: agressões que provocam dor, lesões ou danos à integridade corporal. ● Psicológica: comportamentos que causam sofrimento emocional, medo, humilhação ou controle. ● Sexual: atos ou relações sexuais realizados sem consentimento, inclusive no casamento. ● Patrimonial: retenção, destruição ou subtração de bens, documentos e recursos financeiros. ● Moral: ações como calúnia, difamação ou injúria que afetam a honra da vítima.
Para profissionais de saúde em formação, compreender essas categorias é uma ferramenta clínica essencial, pois muitas mulheres chegam aos serviços sem nomear o que vivem, cabendo ao profissional identificar, acolher e agir com responsabilidade.
Frequentemente, mulheres em situação de violência doméstica buscam atendimento por queixas aparentemente desconexas — dores crônicas, insônia, ansiedade ou lesões recorrentes. Um olhar clínico atento deve ir além do sintoma e considerar possíveis sinais de violência.
● Hematomas em diferentes estágios de cicatrização; ● Fraturas sem explicação coerente; ● Lesões genitais ou abdominais; ● Marcas de contenção nos pulsos; ● Inconsistências entre o relato da paciente e os achados clínicos.
● Ansiedade intensa ou depressão; ● Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT); ● Baixa autoestima; ● Relutância em falar sem a presença do acompanhante; ● Presença constante e dominadora do parceiro durante a consulta.
É fundamental que o profissional de saúde registre essas observações com precisão no prontuário, sem julgamentos e com linguagem técnica. Esse registro pode ser decisivo em processos legais e, principalmente, na construção de uma rede de proteção efetiva para a mulher.
Diante de uma situação identificada ou suspeitada de violência doméstica, o profissional de saúde deve seguir um protocolo estruturado que garanta a segurança, o acolhimento e os direitos da paciente. O Ministério da Saúde estabelece diretrizes claras para esses casos, e conhecê-las é parte indispensável da formação em saúde.
● Garantir um ambiente seguro e privativo para o atendimento, preferencialmente sem a presença do acompanhante. ● Realizar a escuta qualificada, sem interrupções ou julgamentos, documentando os relatos e os achados clínicos de forma detalhada. ● O exame físico completo deve ser feito com consentimento e sensibilidade. ● Quando houver evidência ou suspeita de violência, o profissional tem o dever legal de notificar o caso às autoridades competentes por meio da Ficha de Notificação do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Essa notificação é compulsória e não depende da vontade da vítima, especialmente nos casos que envolvem crianças, adolescentes ou situações de risco de morte.
Além da notificação, cabe ao profissional orientar a mulher sobre seus direitos, acionar a rede intersetorial de apoio — que inclui CRAS, CREAS, Delegacias da Mulher e abrigos — e, quando necessário, acionar o serviço social da instituição. O cuidado não termina na consulta: ele se estende à construção de um plano de segurança junto com a paciente.
Abordar o tema da violência durante uma consulta exige preparo técnico, mas também humano. A forma como o profissional inicia essa conversa pode ser a diferença entre um relato honesto e um silêncio que perpetua o ciclo de violência.
● Pratique a escuta ativa e o acolhimento sem julgamento: crie um ambiente seguro para que a mulher possa falar sobre sua experiência sem medo de críticas ou responsabilização. ● Introduza o tema de forma universalizada: frases como “Pergunto isso a todas as minhas pacientes” ajudam a reduzir o estigma e tornam a abordagem mais natural. ● Faça perguntas diretas, com calma e empatia: questões objetivas podem ser mais efetivas para identificar situações de violência do que perguntas indiretas ou evasivas. ● Valide a experiência da mulher: demonstre apoio independentemente das decisões que ela tomar. Frases como “O que você está vivendo não é culpa sua” e “Você não está sozinha” podem contribuir para aumentar a sensação de segurança. ● Respeite a autonomia da paciente: evite pressioná-la a tomar decisões imediatas, como registrar um boletim de ocorrência. O acolhimento deve priorizar sua segurança, autonomia e vínculo com o serviço de saúde. ● Lembre-se de que cuidar de quem cuida também é essencial: oferecer condições para o bem-estar dos profissionais contribui para um atendimento mais humanizado, seguro e sustentável.
O Agosto Lilás, campanha de conscientização sobre a violência contra a mulher, representa uma oportunidade importante para estudantes da área da saúde. Segundo a OMS, a violência doméstica é um grave problema de saúde pública, e profissionais preparados para identificá-la e agir salvam vidas. Participar de atividades como palestras, rodas de conversa e simulações de atendimento permite desenvolver empatia, repertório técnico e comunicação sensível, complementando a formação teórica com uma visão integral do cuidado.
O IDOMED acredita que formar profissionais de saúde de excelência significa prepará-los para os desafios reais da sociedade. Conhecer a fundo a violência contra a mulher, seus mecanismos e suas consequências, é parte do compromisso com um cuidado que transforma vidas, dentro e fora do consultório.