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Atualizado em
11/09/2026

CID 10 - A59
A tricomoníase é uma infecção do trato genital inferior causada pelo protozoário flagelado Trichomonas vaginalis, sendo considerada a infecção sexualmente transmissível (IST) não viral mais prevalente no mundo. A transmissão ocorre predominantemente por contato sexual desprotegido, o que confere à doença relevância não apenas ginecológica, mas também em saúde pública, dada sua alta incidência e associação com outras infecções sexualmente transmissíveis.
A importância clínica da tricomoníase vai além do desconforto local. A infecção está associada a maior risco de aquisição e transmissão do HIV, bem como a outras ISTs, devido à inflamação da mucosa genital. Além disso, em gestantes, a tricomoníase tem sido relacionada a desfechos obstétricos adversos, como ruptura prematura de membranas, parto prematuro e baixo peso ao nascer, o que reforça a necessidade de diagnóstico e tratamento adequados.
Portanto, a tricomoníase representa uma condição de grande relevância clínica e epidemiológica, exigindo abordagem adequada, tratamento oportuno e orientação sexual, incluindo o tratamento concomitante das parcerias sexuais, como medida essencial para a erradicação da infecção e prevenção de reinfecção.
A apresentação clínica da tricomoníase é variável, podendo oscilar desde quadros assintomáticos até manifestações exuberantes de vulvovaginite. Estima-se que uma proporção significativa das mulheres infectadas permaneça assintomática, o que contribui para a manutenção da cadeia de transmissão e para o subdiagnóstico da infecção.
Quando sintomática, a tricomoníase geralmente se manifesta como um quadro de vulvovaginite aguda, caracterizado por corrimento vaginal abundante, de coloração amarelada ou esverdeada, frequentemente com aspecto espumoso e odor fétido. Associam-se com frequência prurido vulvar, ardor vaginal, disúria e dispareunia, refletindo o processo inflamatório da mucosa genital inferior.
Ao exame ginecológico, observa-se hiperemia da vulva, da vagina e do colo uterino, podendo haver edema e aumento da sensibilidade local. Um achado clássico, embora pouco frequente, é o colo uterino com aspecto em “morango”, caracterizado por pontos hemorrágicos puntiformes decorrentes da intensa inflamação e fragilidade capilar da ectocérvice. O conteúdo vaginal costuma ser abundante e espumoso, aderindo às paredes vaginais.
O diagnóstico da tricomoníase baseia-se na correlação entre os achados clínicos, o exame ginecológico e os resultados laboratoriais. Embora o quadro clínico seja sugestivo em muitos casos, o diagnóstico não deve ser feito apenas com base nos sintomas, devido à ampla variabilidade de apresentações e à possibilidade de infecção assintomática.
A avaliação inicial inclui a análise do pH vaginal, que geralmente se encontra elevado, acima de 4,5, refletindo a alteração do ambiente vaginal causada pela infecção por Trichomonas vaginalis. Esse achado auxilia no diagnóstico diferencial das vulvovaginites, especialmente em relação à candidíase vaginal, na qual o pH tende a permanecer normal.
O exame microscópico a fresco do conteúdo vaginal é um método simples, de baixo custo e amplamente disponível, permitindo a visualização direta do protozoário móvel e flagelado, característico do Trichomonas vaginalis. No entanto, apesar de sua especificidade elevada, o exame a fresco apresenta sensibilidade limitada, podendo resultar em falsos negativos, especialmente quando há baixa carga parasitária ou atraso na análise da amostra.
Métodos laboratoriais mais sensíveis incluem testes de amplificação de ácidos nucleicos (NAAT), considerados atualmente o padrão-ouro para o diagnóstico da tricomoníase. Esses testes apresentam alta sensibilidade e especificidade e podem ser realizados a partir de amostras vaginais, endocervicais ou urinárias. Quando disponíveis, devem ser preferidos, especialmente em pacientes sintomáticas com exame a fresco negativo ou em contextos de rastreamento de infecções sexualmente transmissíveis.
Outros métodos diagnósticos incluem culturas específicas e testes rápidos imunocromatográficos, que apresentam sensibilidade intermediária e podem ser utilizados conforme a disponibilidade do serviço. A cultura, embora bastante específica, tem uso limitado na prática clínica devido ao maior tempo para obtenção do resultado.
Em síntese, o diagnóstico da tricomoníase deve ser baseado em métodos laboratoriais sempre que possível, garantindo maior precisão diagnóstica e melhor controle da infecção.
O tratamento da tricomoníase tem como objetivos a erradicação do Trichomonas vaginalis, o alívio dos sintomas, a interrupção da cadeia de transmissão e a prevenção de complicações associadas à infecção. Diferentemente de outras vulvovaginites, a tricomoníase exige tratamento sistêmico, uma vez que terapias tópicas isoladas não são eficazes para a eliminação do protozoário.
O fármaco de escolha para o tratamento da tricomoníase é o metronidazol, pertencente ao grupo dos nitroimidazóis, devido à sua elevada eficácia contra o agente etiológico. Os esquemas terapêuticos recomendados incluem metronidazol 2 g, por via oral, em dose única, ou metronidazol 500 mg, por via oral, a cada 12 horas, por 7 dias. Este último esquema tem sido associado a menores taxas de falha terapêutica, especialmente em mulheres sintomáticas ou com infecção persistente.
Como alternativa, pode-se utilizar o tinidazol 2 g, por via oral, em dose única, quando disponível, apresentando perfil semelhante de eficácia e melhor tolerabilidade gastrointestinal em alguns casos.
Um aspecto fundamental do manejo da tricomoníase é o tratamento concomitante das parcerias sexuais, independentemente da presença de sintomas, uma vez que a reinfecção é frequente na ausência dessa medida. Recomenda-se também a abstinência sexual até a conclusão do tratamento e resolução completa dos sintomas.
Na gestação, o metronidazol é considerado seguro e deve ser utilizado quando há diagnóstico de tricomoníase, principalmente em gestantes sintomáticas, visando reduzir complicações maternas e obstétricas. O esquema mais utilizado é o metronidazol 2 g, via oral, em dose única, embora o regime de 7 dias possa ser considerado conforme avaliação clínica.
O rastreamento universal da tricomoníase em mulheres assintomáticas não é recomendado de forma rotineira na população geral. No entanto, ele pode ser considerado em grupos de maior risco, como mulheres vivendo com HIV, mulheres com histórico recorrente de ISTs ou em contextos de alta prevalência da infecção. Nesses cenários, o rastreamento contribui para a redução da transmissão e das complicações associadas à infecção.
O rastreamento da tricomoníase em mulheres assintomáticas deve ser realizado por meio de métodos laboratoriais com alta sensibilidade e especificidade, uma vez que a ausência de sintomas torna o diagnóstico clínico pouco confiável. O método preferencial atualmente é o teste de amplificação de ácidos nucleicos (NAAT), considerado o padrão-ouro para a detecção do Trichomonas vaginalis.
Os testes de NAAT podem ser realizados a partir de amostras vaginais, endocervicais ou de urina, coletadas durante o exame ginecológico ou por autocoleta vaginal, o que amplia a aceitabilidade e o acesso ao rastreamento. Esses testes apresentam elevada acurácia diagnóstica, mesmo em pacientes assintomáticas, sendo especialmente úteis em populações com maior risco de infecção ou em serviços com alta prevalência de tricomoníase.
Em locais onde os testes moleculares não estão disponíveis, podem ser utilizados métodos alternativos, como testes rápidos imunocromatográficos ou cultura específica para Trichomonas vaginalis, embora apresentem sensibilidade inferior e maior dependência de condições adequadas de coleta e processamento. O exame microscópico a fresco, apesar de amplamente utilizado em pacientes sintomáticas, não é recomendado como método de rastreamento em mulheres assintomáticas devido à sua baixa sensibilidade nesse contexto.
Independentemente do método utilizado, o rastreamento deve estar inserido em uma abordagem integral de saúde sexual, incluindo aconselhamento, testagem para outras infecções sexualmente transmissíveis, orientação sobre uso de preservativos e garantia de tratamento adequado tanto da paciente quanto de suas parcerias sexuais em caso de resultado positivo. Dessa forma, o rastreamento direcionado da tricomoníase contribui para o controle da infecção e para a redução de suas complicações individuais e coletivas.
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• Chefe do Setor de Patologia do Trato Genital Inferior do HUCFF-UFRJ
• Prof. responsável pela disciplina de Saúde da Mulher da Universidade Estácio de Sá - Campus Cittá América
• Coordenadora Nacional dos Cursos de Pós-graduação em Ginecologia do IDOMED
• Membro Titular (Cadeira 81) da Academia de Medicina do Rio de Janeiro.
• Membro Titular da ISSVD - International Society for the Study of Vulvaginal Disease.
• Diretora da SGORJ e da ABPTGIC.
• Membro do Conselho Editorial da Revista Femina (Publicação da Febrasgo), do JBG (Jornal Brasileiro de Ginecologia) e da Revista Gestão em Saúde da Editora DOC.
• Ginecologista - Obstetra
• Professora de Propedêutica da UNESA - Campus Cittá América
• Pós-graduação em Ginecologia Endócrina
• Mestranda da UFRJ
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