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Perda auditiva no idoso (presbiacusia): impacto na cognição, equilíbrio e qualidade de vida

Tempo de leitura

7 minutos

Atualizado em

30/07/2026

Perda auditiva no idoso (presbiacusia): impacto na cognição, equilíbrio e qualidade de vida

Introdução

CID 10 - H91.1

O envelhecimento populacional é uma realidade global e, com ele, surgem desafios crescentes relacionados à saúde do idoso. Entre as condições mais prevalentes, a perda auditiva relacionada à idade, conhecida como presbiacusia, ocupa posição de destaque, afetando mais de 30% dos indivíduos acima de 65 anos e mais de 50% dos maiores de 75 anos. Apesar de sua alta prevalência, a presbiacusia ainda é subdiagnosticada e subtratada, sendo frequentemente considerada uma consequência “normal” do envelhecimento, o que contribui para atrasos no diagnóstico e no início da reabilitação.

A perda auditiva no idoso vai muito além da dificuldade para ouvir sons. Estudos recentes demonstram associação direta com declínio cognitivo, aumento do risco de quedas, isolamento social, depressão e perda de autonomia, configurando-se como um importante fator de risco modificável para demência. Nesse contexto, o otorrinolaringologista assume papel fundamental não apenas no diagnóstico, mas também na orientação, no tratamento e no acompanhamento desses pacientes, promovendo envelhecimento mais saudável e ativo.

1. O que é presbiacusia e por que ela ocorre?

A presbiacusia é uma perda auditiva neurossensorial, bilateral, progressiva e simétrica, relacionada ao processo natural de envelhecimento do sistema auditivo. Sua fisiopatologia é multifatorial e envolve alterações degenerativas na cóclea, no nervo auditivo e nas vias auditivas centrais.

Com o avançar da idade, ocorre degeneração das células ciliadas internas e externas da cóclea, redução do número de neurônios do nervo coclear, alterações metabólicas da estria vascular e comprometimento da microcirculação. Além disso, o processamento auditivo central também sofre alterações, dificultando a compreensão da fala, especialmente em ambientes ruidosos.

Fatores ambientais e clínicos contribuem para o agravamento da presbiacusia, como:

• exposição prolongada ao ruído ao longo da vida;

• doenças cardiovasculares;

diabetes mellitus;

• tabagismo;

• uso de medicamentos ototóxicos;

• histórico de infecções otológicas;

• predisposição genética.

A presbiacusia costuma iniciar-se pelas frequências agudas, o que explica a dificuldade em compreender a fala, especialmente consoantes, mesmo quando o idoso relata “ouvir, mas não entender”. Esse é um dos principais motivos de frustração e isolamento social nessa população.

2. Qual é o impacto da perda auditiva na cognição e na saúde mental?

Nos últimos anos, a perda auditiva passou a ser reconhecida como um dos principais fatores de risco modificáveis para o desenvolvimento de demência, superando inclusive fatores como hipertensão e sedentarismo. O mecanismo dessa associação é multifatorial.

A redução da estimulação auditiva leva à diminuição da atividade cortical nas áreas auditivas, promovendo reorganização cerebral e sobrecarga cognitiva. O cérebro passa a gastar mais recursos para compreender sons, reduzindo a disponibilidade para outras funções cognitivas, como memória, atenção e linguagem.

Além disso, a dificuldade de comunicação favorece o isolamento social, que é um fator de risco independente para depressão, ansiedade e declínio cognitivo. Muitos idosos passam a evitar conversas, reuniões familiares e atividades sociais, o que acelera a perda de autonomia e compromete a qualidade de vida.

Estudos longitudinais demonstram que idosos com perda auditiva não tratada apresentam maior taxa de declínio cognitivo ao longo dos anos, enquanto aqueles que utilizam aparelhos auditivos apresentam desaceleração desse processo. Isso reforça o papel da reabilitação auditiva como estratégia de prevenção em saúde pública.

3. Qual é a relação entre perda auditiva, equilíbrio e risco de quedas?

O sistema auditivo compartilha íntima relação anatômica e funcional com o sistema vestibular, ambos localizados no ouvido interno. Com o envelhecimento, as alterações degenerativas que acometem a cóclea frequentemente também afetam as estruturas vestibulares, levando a distúrbios do equilíbrio.

A presbiacusia está associada a:

• instabilidade postural;

• aumento da oscilação corporal;

• maior dificuldade em ambientes com estímulos visuais complexos;

• tontura inespecífica;

• maior risco de quedas e fraturas.

As quedas representam uma das principais causas de morbimortalidade no idoso, sendo responsáveis por fraturas de quadril, internações prolongadas, perda de independência e aumento da mortalidade. A avaliação otoneurológica é, portanto, essencial em idosos com perda auditiva, especialmente quando há queixa de tontura ou instabilidade.

A reabilitação vestibular, associada à reabilitação auditiva, tem se mostrado eficaz na melhora do equilíbrio e na redução do risco de quedas, reforçando a importância de uma abordagem integrada.

4. Como e quando investigar a presbiacusia?

O diagnóstico da perda auditiva no idoso deve ser precoce e sistemático. A recomendação é que todo idoso seja submetido à avaliação auditiva periódica, mesmo na ausência de queixa, pois muitos pacientes subestimam a perda auditiva ou adaptam-se silenciosamente às dificuldades.

A avaliação deve incluir:

• anamnese detalhada;

• otoscopia;

• audiometria tonal e vocal;

• imitanciometria;

• avaliação do processamento auditivo, quando indicada;

• exames complementares, conforme a suspeita clínica.

É importante diferenciar a presbiacusia de outras causas de perda auditiva, como cerume impactado, otosclerose, perdas assimétricas, tumores do ângulo pontocerebelar ou perdas súbitas.

A avaliação global do idoso deve incluir também investigação da cognição, do equilíbrio, da funcionalidade e do impacto social da perda auditiva, pois o tratamento deve ser individualizado e centrado no paciente.

5. Como são realizados o tratamento e a reabilitação da presbiacusia?

O tratamento da presbiacusia é baseado principalmente na reabilitação auditiva, sendo os aparelhos de amplificação sonora individual (AASI) a principal ferramenta terapêutica. Atualmente, os dispositivos são altamente tecnológicos, discretos, com ajuste automático de ambientes, conectividade e excelente qualidade sonora.

A adaptação ao aparelho auditivo deve ser acompanhada de orientação adequada, treinamento auditivo e acompanhamento fonoaudiológico. A adesão ao uso é um dos maiores desafios, e o suporte multiprofissional aumenta significativamente o sucesso da reabilitação.

Em casos de perdas auditivas severas ou profundas, o implante coclear pode ser indicado mesmo em idosos, com resultados expressivos na comunicação e na qualidade de vida.

O impacto da reabilitação vai muito além da audição. Idosos reabilitados apresentam:

• melhora na comunicação;

• redução do isolamento social;

• melhora do humor e da autoestima;

• redução do risco de declínio cognitivo;

• maior autonomia e segurança.

A atuação do otorrinolaringologista, integrada à fonoaudiologia, geriatria e equipe multidisciplinar, é essencial para garantir o sucesso terapêutico.

Conclusão

A presbiacusia é uma condição altamente prevalente, porém subvalorizada, com impacto profundo na cognição, no equilíbrio e na qualidade de vida do idoso. O reconhecimento precoce e o tratamento adequado representam uma oportunidade real de promover um envelhecimento saudável, autonomia e bem-estar.

Investir em avaliação auditiva periódica, reabilitação e educação do paciente é uma estratégia eficaz e baseada em evidências para reduzir a morbidade, prevenir quedas e retardar o declínio cognitivo. A Otorrinolaringologia tem papel central nesse cuidado, atuando não apenas no tratamento, mas na promoção da saúde e da dignidade no envelhecimento.

Considerações finais

Médicos que desejam avançar na especialidade podem conhecer a Pós-Graduação em Otorrinolaringologia do IDOMED, que combina conteúdos teóricos com vivências clínicas e cirúrgicas em diferentes unidades de saúde. A formação conta com acompanhamento de especialistas, parceria com o Instituto de Otorrinolaringologia da Gamboa e possibilidade de participação em até 150 cirurgias por ano, ampliando o contato com a rotina e as diferentes áreas de atuação da especialidade.

Sobre a autora

Dra. Isabela Guimarães Pache de Faria | CRM 5278710-8

• Chefe do IOG

• Coordenadora Acadêmica da Pós-Graduação em Otorrinolaringologia no IDOMED

• Coordenadora da Granato Ensino e Pesquisa

• Otorrinolaringologista no HMMC

• Mestranda no INI

Aviso Legal: As informações contidas neste blogpost têm caráter estritamente educativo e não substituem, em hipótese alguma, a avaliação, o diagnóstico e a prescrição de um médico ou farmacêutico. Leia sempre a bula.

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